segunda-feira, 22 de junho de 2009

ENCERRAMENTO DA SEMANA DE ORAÇÃO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS

ENCERRAMENTO DA SEMANA DE ORAÇÃO PELA UNIDADE DOS CRISTÃOS
Bento XVI 07/02/2009 HOMILIA DO PAPA BENTO XVI Basílica de São Paulo fora dos Muros. Domingo, 25 de Janeiro de 2009.
Amados irmãos e irmãs: É sempre grande a alegria de nos encontrarmos, junto do sepulcro do Apóstolo Paulo, na memória litúrgica da sua Conversão, para concluir a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Saúdo todos vós com afecto. De modo particular, saúdo o Cardeal Cordero Lanza di Montezemolo, o Abade e a Comunidade dos monges que nos hospedam. Cumprimento também o Cardeal Kasper, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Juntamente com ele, saúdo os Senhores Cardeais presentes, os Bispos e os Pastores das várias Igrejas e Comunidades eclesiais, aqui reunidos esta tarde. Dirijo uma palavra de reconhecimento especial a quantos colaboraram na preparação do material para a oração, vivendo pessoalmente o exercício da reflexão e do confronto na escuta uns dos outros e, todos juntos, da Palavra de Deus.
A conversão de São Paulo oferece-nos o modelo e indica-nos a vereda para caminhar rumo à plena unidade. Com efeito, a unidade exige uma conversão: da divisão à comunhão, da unidade ferida à recuperada e plena. Esta conversão é dom de Cristo ressuscitado, como aconteceu com São Paulo.
Ouvimo-lo das próprias palavras do Apóstolo, na leitura há pouco proclamada: "Por graça de Deus sou aquele que sou" (1 Cor 15, 10). O próprio Senhor, que chamou Saulo no caminho de Damasco, dirige-se aos membros da sua Igreja que é una e santa e, chamando cada qual pelo nome, pergunta: por que me dividiste? Por que feriste a unidade do meu corpo? A conversão implica duas dimensões. Na primeira fase conhecem-se e reconhecem-se na luz de Cristo as culpas, e este reconhecimento torna-se dor e arrependimento, desejo de um novo início. Na segunda, reconhece-se que este novo caminho não poder advir de nós mesmos. Consiste em deixar-se conquistar por Cristo. Como diz São Paulo: "...esforço-me por correr para O conquistar, porque também eu fui conquistado por Jesus Cristo" (Fl 3, 12). A conversão exige o nosso sim, o meu "correr"; em última análise, não é uma actividade minha, mas dom, um deixar-se formar por Cristo; é morte e ressurreição. Por isso São Paulo não diz: "Converti-me", mas afirma "estou morto" (Gl 2, 19), sou uma nova criatura. Na realidade, a conversão de São Paulo não foi uma passagem da imoralidade à moralidade a sua moralidade era alta de uma fé errada a uma fé recta a sua fé era verdadeira, embora fosse incompleta mas foi o ser conquistado pelo amor de Cristo: a renúncia à própria perfeição foi a humildade de quem se coloca sem reservas ao serviço de Cristo pelos irmãos. E só nesta renúncia a nós mesmos, nesta conformidade com Cristo, podemos estar unidos também entre nós, podemos tornar-nos "um só" em Cristo. É a comunhão com Cristo ressuscitado que nos confere a unidade.
Podemos observar uma interessante analogia com a dinâmica da conversão de São Paulo também meditando sobre o texto bíblico do profeta Ezequiel (cf. 37, 15-28), escolhido previamente este ano como base da nossa oração. Efectivamente, nele é apresentado o gesto simbólico das duas varas unidas numa só, na mão do profeta que, com este gesto, representa a acção futura de Deus. É a segunda parte do capítulo 37, que na primeira parte contém a célebre visão dos ossos áridos e da ressurreição de Israel, realizada pelo Espírito de Deus. Como deixar de observar que o sinal profético da reunificação do povo de Israel é inserido depois do grande símbolo dos ossos áridos vivificados pelo Espírito? Daqui deriva um esquema teológico análogo ao da conversão de São Paulo: em primeiro lugar está o poder de Deus que, com o seu Espírito, realiza a ressurreição como uma nova criação. Este Deus, que é o Criador e tem o poder de ressuscitar os mortos, também é capaz de reconduzir para a unidade o povo dividido em dois. Paulo como e mais do que Ezequiel torna-se instrumento eleito da pregação da unidade conquistada por Jesus mediante a Cruz e a ressurreição: a unidade entre judeus e pagãos, para formar um único povo novo. Portanto, a ressurreição de Cristo estende o perímetro da unidade: não só unidade das tribos de Israel, mas unidade de judeus e pagãos (cf. Ef 2; Jo 10, 16); unificação da humanidade dispersa pelo pecado e ainda mais unidade de todos os crentes em Cristo
A opção deste trecho do profeta Ezequiel, devemo-la aos irmãos da Coreia, que se sentiram fortemente interpelados por esta página bíblica, quer como coreanos, quer como cristãos. Na divisão do povo judaico em dois reinos, eles reflectiram-se como filhos de uma única terra, que as vicissitudes políticas separaram, uma parte ao norte e a outra ao sul. E esta sua experiência humana ajudou-os a compreender melhor o drama da divisão entre os cristãos. Agora, à luz desta Palavra de Deus que os nossos irmãos coreanos escolheram e propuseram a todos, sobressai uma verdade cheia de esperança: Deus promete ao seu povo uma nova unidade, que deve ser sinal e instrumento de reconciliação e de paz também no plano histórico, para todas as nações. A unidade que Deus concede à sua Igreja, e pela qual nós oramos, é naturalmente a comunhão em sentido espiritual, na fé e na caridade; mas nós sabemos que esta unidade em Cristo é fermento de fraternidade também no plano social, nas relações entre as nações e para toda a família humana. É o fermento do Reino de Deus que faz crescer toda a massa (cf. Mt 13, 33). Neste sentido, a oração que elevamos nestes dias, referindo-nos à profecia de Ezequiel, tornou-se também intercessão pelas diversas situações de conflito que no presente afligem a humanidade. Onde as palavras humanas se tornam impotentes, porque prevalece o trágico clamor da violência e das armas, a força profética da Palavra de Deus não desfalece e repete-nos que a paz é possível, e que temos o dever de ser, nós mesmos, instrumentos de reconciliação e de paz. Por isso, exige-se sempre que a nossa oração pela unidade e pela paz seja comprovada por gestos corajosos de reconciliação entre nós, cristãos. Penso ainda na Terra Santa: como é importante que os fiéis que ali vivem, assim como os peregrinos que a visitam, ofereçam a todos o testemunho de que a diversidade dos ritos e das tradições não deveria constituir um obstáculo ao respeito mútuo e à caridade fraterna. Nas legítimas diversidades das diferentes tradições, temos que procurar a unidade na fé, no nosso "sim" fundamental a Cristo e à sua única Igreja. E assim as diversidades não serão mais obstáculo que nos separa, mas riqueza na multiplicidade das expressões da fé comum.
Gostaria de concluir esta minha reflexão, fazendo referência a um acontecimento que os mais idosos entre nós certamente não esquecem. No dia 25 de Janeiro de 1959, precisamente há cinquenta anos, o Beato Papa João XXIII manifestou pela primeira vez neste lugar a sua vontade de convocar "um Concílio ecuménico para a Igreja universal" (AAS LI [1959], pág. 68). Ele dirigiu este anúncio aos Padres Cardeais, na Sala capitular do Mosteiro de São Paulo, depois de ter celebrado a Missa solene na Basílica. Dessa decisão próvida sugerida pelo Espírito Santo ao meu venerado Predecessor, segundo a sua sólida convicção, derivou também uma contribuição fundamental para o ecumenismo, resumida no Decreto Unitatis redintegratio. Nele, entre outras coisas, lê-se: "Não pode existir verdadeiro ecumenismo sem conversão interior; pois o desejo de unidade nasce e amadurece na renovação do espírito (cf. Ef 4, 23), da abnegação própria e do pleno exercício da caridade" (n. 7). A atitude de conversão interior em Cristo, de renovação espiritual, de maior caridade para com os outros cristãos deu lugar a uma nova situação nas relações ecuménicas. Os frutos dos diálogos teológicos, com as suas convergências e com a identificação mais específica das divergências que ainda subsitem, impelem a continuar intrepidamente em duas direcções: na recepção daquilo que foi alcançado positivamente e num renovado compromisso rumo ao futuro. Oportunamente, o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, ao qual agradeço o serviço que presta à causa da unidade de todos os discípulos do Senhor, recentemente reflectiu sobre a recepção e o futuro do diálogo ecuménico. Se por um lado esta reflexão quer, justamente, valorizar aquilo que já foi alcançado, por outro, tenciona encontrar novos caminhos para a continuação das relações entre as Igrejas e Comunidades eclesiais no contexto actual. O horizonte da plena unidade permanece aberto diante de nós. Trata-se de uma tarefa árdua, mas entusiasmante para os cristãos que desejam viver em sintonia com a oração do Senhor: "Para que todos sejam um só, a fim de que o mundo creia" (Jo 17, 21). O Concílio Vaticano II delineou-nos que "este santo propósito de reconciliar todos os cristãos na unidade da Igreja de Cristo, una e única, excede as forças e os dotes humanos" (UR, 24). Confiando na oração do Senhor Jesus Cristo, e animados pelos significativos passos dados pelo movimento ecuménico, invoquemos com fé o Espírito Santo, a fim de que continue a iluminar e orientar o nosso caminho. Estimule-nos e assista-nos do céu o Apóstolo Paulo, que tanto trabalhou e sofreu pela unidade do Corpo místico de Cristo; acompanhe-nos e ajude-nos a Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da unidade da Igreja. Fonte: Percival Puggina

Nenhum comentário:

Postar um comentário