ESTÃO PEGANDO NO NOSSO PÉ!
Zero Hora, 6 de janeiro de 2008. Pertenço à classe média. A classe média, você sabe, é aquela que, apesar de pagar, na boa, a maior parte das contas nacionais, é automaticamente indiciada por tudo que acontece de ruim. Não bastasse isso, sou do sexo masculino, heterossexual e branco, de modo que preencho o biótipo do opressor padrão, conforme definem os tratados sociológicos rascunhados nas mesas de bar. Essa mesma sociologia bêbada, de resto, reserva o adjetivo “hipócrita” para a sociedade onde nasci, me criei e irremediavelmente vivo. Quando assisti “Tropa de elite”, fiquei sabendo, por exemplo, que a culpa pelo tráfico de drogas e pela criminalidade era da minha desprestigiada classe média. Pois é. Os usuários, os traficantes, os mulas, os policiais corruptos, o PCC, o Comando Vermelho e as FARC têm pouco a ver com isso. A culpa maior é do segmento social onde estou inscrito apesar de não cheirar coisa alguma com este meu nariz grande. Não, não sei o que minha classe andou aprontando, mas alerto-a: estão pegando no nosso pé! Marx não nos ajuda a entender o motivo. Ele escreveu muito sobre luta de classes, mas coisa alguma sobre azar de classe. E o problema da classe média é pura urucubaca. Os pobres ganham indulgência plenária por quaisquer erros que cometam. Os ricos são poucos e protegidos. Ricos e intelectuais, então, vivem no paraíso – férias em Paris, ataques ao “sistema”, palmas (à distância) para Fidel Castro. São o modelo do bom sujeito padrão. Já a minha classe média, coitada! Ela constitui, por excelência, a classe dos incluídos. Ademais, ganha em quantidade, apanha na qualidade, tem cacife para ser responsabilizada e assume tudo. Na boa.
Desde os tempos bíblicos, pobre é definido como pobre. Mas a palavra pobre induz à solidariedade, não à luta de classes. Já o vocábulo “excluído” (inventado por esse marxismo borrifado com água benta que é a Teologia da Libertação) serve ao marxismo como chantilly no morango, na medida em que gera o antagonismo: se existe excluído é porque existe incluído. Postas as palavras convenientes, os tolos engolem o resto sem engasgar: o excluído é excluído porque o incluído o quer do lado de fora. Quem? A classe média, ora bolas! E está servida a mesa para o velho e convulsionário discurso.Dificilmente alguém aparece no rádio ou na tevê comentando os problemas nacionais, sem nos inculpar. Vivemos em pânico, murados e gradeados devido aos males gerados por nosso consumismo, padrão de vida, insensibilidade para os problemas sociais e adição às drogas. E só queremos ver bandidos algemados e presos porque não nos enternecemos ante seus problemas.
A eficácia dos métodos de construção da hegemonia, conforme concebidos por Gramsci, se expressa, também, na capacidade de levar o adversário a usar a própria força contra si mesmo. De repente, até o filme Tropa de Elite, que causou enorme escarcéu por não se alinhar com as explicações marxistas para a criminalidade, acabou incorrendo nelas ao afirmar que o consumo de drogas é problema de classe, e não uma epidemia que atinge pessoas em todos os grupos sociais. É marxismo demais para meu paladar middle class! Percival Puggina
Zero Hora, 6 de janeiro de 2008. Pertenço à classe média. A classe média, você sabe, é aquela que, apesar de pagar, na boa, a maior parte das contas nacionais, é automaticamente indiciada por tudo que acontece de ruim. Não bastasse isso, sou do sexo masculino, heterossexual e branco, de modo que preencho o biótipo do opressor padrão, conforme definem os tratados sociológicos rascunhados nas mesas de bar. Essa mesma sociologia bêbada, de resto, reserva o adjetivo “hipócrita” para a sociedade onde nasci, me criei e irremediavelmente vivo. Quando assisti “Tropa de elite”, fiquei sabendo, por exemplo, que a culpa pelo tráfico de drogas e pela criminalidade era da minha desprestigiada classe média. Pois é. Os usuários, os traficantes, os mulas, os policiais corruptos, o PCC, o Comando Vermelho e as FARC têm pouco a ver com isso. A culpa maior é do segmento social onde estou inscrito apesar de não cheirar coisa alguma com este meu nariz grande. Não, não sei o que minha classe andou aprontando, mas alerto-a: estão pegando no nosso pé! Marx não nos ajuda a entender o motivo. Ele escreveu muito sobre luta de classes, mas coisa alguma sobre azar de classe. E o problema da classe média é pura urucubaca. Os pobres ganham indulgência plenária por quaisquer erros que cometam. Os ricos são poucos e protegidos. Ricos e intelectuais, então, vivem no paraíso – férias em Paris, ataques ao “sistema”, palmas (à distância) para Fidel Castro. São o modelo do bom sujeito padrão. Já a minha classe média, coitada! Ela constitui, por excelência, a classe dos incluídos. Ademais, ganha em quantidade, apanha na qualidade, tem cacife para ser responsabilizada e assume tudo. Na boa.
Desde os tempos bíblicos, pobre é definido como pobre. Mas a palavra pobre induz à solidariedade, não à luta de classes. Já o vocábulo “excluído” (inventado por esse marxismo borrifado com água benta que é a Teologia da Libertação) serve ao marxismo como chantilly no morango, na medida em que gera o antagonismo: se existe excluído é porque existe incluído. Postas as palavras convenientes, os tolos engolem o resto sem engasgar: o excluído é excluído porque o incluído o quer do lado de fora. Quem? A classe média, ora bolas! E está servida a mesa para o velho e convulsionário discurso.Dificilmente alguém aparece no rádio ou na tevê comentando os problemas nacionais, sem nos inculpar. Vivemos em pânico, murados e gradeados devido aos males gerados por nosso consumismo, padrão de vida, insensibilidade para os problemas sociais e adição às drogas. E só queremos ver bandidos algemados e presos porque não nos enternecemos ante seus problemas.
A eficácia dos métodos de construção da hegemonia, conforme concebidos por Gramsci, se expressa, também, na capacidade de levar o adversário a usar a própria força contra si mesmo. De repente, até o filme Tropa de Elite, que causou enorme escarcéu por não se alinhar com as explicações marxistas para a criminalidade, acabou incorrendo nelas ao afirmar que o consumo de drogas é problema de classe, e não uma epidemia que atinge pessoas em todos os grupos sociais. É marxismo demais para meu paladar middle class! Percival Puggina

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