LISTA FECHADA É DUPLO GOLPE II
Percival Puggina. Zero Hora, 10 de junho de 2007
Das três opções possíveis na relação entre Igreja e Estado – estado confessional, laico e ateu – o Brasil, corretamente, escolheu ser laico, não adotando como própria qualquer religião. Há quem conclua desse princípio ser inadmissível a presença de crucifixos ou que se reze em repartições públicas. E há quem, na falta de causas mais relevantes, faça desse cavalo o matungo de sua batalha existencial. Já criaram até uma ONG para isso.
O fato de um princípio ser correto não determina que seja igualmente correta toda e qualquer aplicação que dele se produza. Portanto, para não sermos capturados numa armadilha retórica, impõe-se ver o que acontece quando o testamos em outras situações análogas perante as quais poderia ser invocado. É o que faremos, mostrando que a tese não apenas desaba, mas deixam evidentes, ao ser desmontada, as verdadeiras motivações e objetivos dos autores.
Se um simples crucifixo numa sala de audiências, por exemplo, contrariasse a separação entre Igreja e Estado, resultaria inadmissível que estados da Federação, municípios, ruas, rios e acidentes topográficos levassem nomes de santos. Mais, se o princípio em tela servisse para interditar orações em escolas e repartições, muito menos aceitáveis seriam feriados religiosos como o Natal e a Sexta-Feira Santa, bem como os 52 domingos do ano (domingo, Dei Domini, ou seja, Dia do Senhor). E aí? Cairia o Natal e ficaria o Carnaval por ser festa pagã? Cairia o crucifixo da sala de audiências e ficaria a cega deusa Themis, com sua espada, porque nela ninguém crê? Nova fresta na porteira e o Cristo Redentor deveria ser lançado morro abaixo e substituído por outra estátua. Da garota de Ipanema, talvez?
Não, não estou exagerando, nem apenas evidenciando um disparate que se desnuda sozinho. A separação entre Igreja e Estado tem aplicações bem superiores às mesquinharias do materialismo militante, incapaz de perceber o paradoxo de uma repartição onde se pode contar piadas e falar da vida alheia, mas onde é proibido rezar. Estou denunciando, isto sim, que pretendem deturpar um nobre e valioso princípio, muito anterior ao laicismo e ao ateísmo, enunciado diretamente por Jesus: “Daí a Deus o que é de Deus e a César o que é de César”.
Os consagrados ao ateísmo sabem que nada há de original naquilo que tentam. Tudo que descrevi, e pode ter parecido caricatural, ocorreu incontáveis vezes na história, sempre com a mesmíssima motivação e colhendo os resultados conhecidos. Dentre milhares, por falta de espaço, lembro três casos: a mudança do calendário francês pelos revolucionários de 1789 para dar sumiço às datas cristãs; a mudança, em 1924, do nome de São Petersburgo para Leningrado pelos bolchevistas e o martírio dos cristeros, no México, em 1926, por resistirem à proibição de todas as manifestações públicas de fé.
Por onde passa o boi do veto ao crucifixo, atropelando a cultura e a religiosidade do povo, passa a boiada inteira. Com as mesmas e preconceituosas alegações pretendem, agora, cassar até a cidadania das pessoas de fé, inibindo-as de opinar se essa opinião coincidir com os elevados valores inerentes à moral judaico-cristã. Conhecidos a origem e o destino da boiada, resta lembrar que quem tem medo de crucifixo é vampiro. Percival Puggina.
Percival Puggina. Zero Hora, 10 de junho de 2007
Das três opções possíveis na relação entre Igreja e Estado – estado confessional, laico e ateu – o Brasil, corretamente, escolheu ser laico, não adotando como própria qualquer religião. Há quem conclua desse princípio ser inadmissível a presença de crucifixos ou que se reze em repartições públicas. E há quem, na falta de causas mais relevantes, faça desse cavalo o matungo de sua batalha existencial. Já criaram até uma ONG para isso.
O fato de um princípio ser correto não determina que seja igualmente correta toda e qualquer aplicação que dele se produza. Portanto, para não sermos capturados numa armadilha retórica, impõe-se ver o que acontece quando o testamos em outras situações análogas perante as quais poderia ser invocado. É o que faremos, mostrando que a tese não apenas desaba, mas deixam evidentes, ao ser desmontada, as verdadeiras motivações e objetivos dos autores.
Se um simples crucifixo numa sala de audiências, por exemplo, contrariasse a separação entre Igreja e Estado, resultaria inadmissível que estados da Federação, municípios, ruas, rios e acidentes topográficos levassem nomes de santos. Mais, se o princípio em tela servisse para interditar orações em escolas e repartições, muito menos aceitáveis seriam feriados religiosos como o Natal e a Sexta-Feira Santa, bem como os 52 domingos do ano (domingo, Dei Domini, ou seja, Dia do Senhor). E aí? Cairia o Natal e ficaria o Carnaval por ser festa pagã? Cairia o crucifixo da sala de audiências e ficaria a cega deusa Themis, com sua espada, porque nela ninguém crê? Nova fresta na porteira e o Cristo Redentor deveria ser lançado morro abaixo e substituído por outra estátua. Da garota de Ipanema, talvez?
Não, não estou exagerando, nem apenas evidenciando um disparate que se desnuda sozinho. A separação entre Igreja e Estado tem aplicações bem superiores às mesquinharias do materialismo militante, incapaz de perceber o paradoxo de uma repartição onde se pode contar piadas e falar da vida alheia, mas onde é proibido rezar. Estou denunciando, isto sim, que pretendem deturpar um nobre e valioso princípio, muito anterior ao laicismo e ao ateísmo, enunciado diretamente por Jesus: “Daí a Deus o que é de Deus e a César o que é de César”.
Os consagrados ao ateísmo sabem que nada há de original naquilo que tentam. Tudo que descrevi, e pode ter parecido caricatural, ocorreu incontáveis vezes na história, sempre com a mesmíssima motivação e colhendo os resultados conhecidos. Dentre milhares, por falta de espaço, lembro três casos: a mudança do calendário francês pelos revolucionários de 1789 para dar sumiço às datas cristãs; a mudança, em 1924, do nome de São Petersburgo para Leningrado pelos bolchevistas e o martírio dos cristeros, no México, em 1926, por resistirem à proibição de todas as manifestações públicas de fé.
Por onde passa o boi do veto ao crucifixo, atropelando a cultura e a religiosidade do povo, passa a boiada inteira. Com as mesmas e preconceituosas alegações pretendem, agora, cassar até a cidadania das pessoas de fé, inibindo-as de opinar se essa opinião coincidir com os elevados valores inerentes à moral judaico-cristã. Conhecidos a origem e o destino da boiada, resta lembrar que quem tem medo de crucifixo é vampiro. Percival Puggina.

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