ASILO POLÊMICO
A decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, de conceder status de refugiado político ao italiano Cesare Battisti, ex-integrante de um grupo de esquerda e condenado por quatro homicídios ocorridos nos anos 70, provocou ontem uma crise entre Itália e Brasil. O Ministério do Exterior italiano convocou o embaixador brasileiro no país, Adhemar Gabriel Bahadian, para pedir formalmente explicações sobre o refúgio e expressar "sua contrariedade e surpresa" com a decisão.
Diversos integrantes do governo italiano reagiram com indignação. A subsecretária de Justiça, Elisabetta Alberti Casellati, disse à rádio estatal RAI que "a decisão do governo brasileiro é uma afronta à Itália":
- É uma falta de respeito com a nossa democracia, que foi acusada, acreditando-se na tese de perseguição política, de tirania. É um insulto ao nosso sistema de Justiça, deslegitimado pela autoridade brasileira, e é uma vergonha para as vítimas do terrorismo e seus familiares.
O Departamento de Exteriores do governo italiano informou que o secretário-geral do ministério, Giampiero Massolo, manifestou ao embaixador "a indignação de todas as forças políticas parlamentares, dos parentes das vítimas e de toda a opinião pública" pela decisão. O Ministério do Exterior protestou, em nota: "Expressamos grande surpresa e forte amargura pela decisão tomada pelo ministro da Justiça brasileiro que, contrariando o que foi indicado pelo Comitê Nacional para os Refugiados, acatou o recurso de Cesare Battisti, um terrorista responsável por gravíssimos crimes que nada têm a ver com o status de refugiado político". Massolo demonstrou sua "perplexidade" pelas explicações de Tarso Genro ao justificar a concessão do benefício. Ele pediu ao embaixador que reitere às autoridades brasileiras o "firme clamor" do governo italiano para que a decisão seja revista.
"É um erro que ofende os italianos" O ministro da Justiça, Angelino Alfana, disse que ligará nas próximas horas para o colega brasileiro. Mais categórico foi o ministro do Interior, Roberto Maroni: - É um erro muito grave do governo brasileiro, que ofende as vítimas do terrorismo, o sistema judiciário e o povo italiano - disse Maroni, destacando que a justificativa de que Battisti poderia sofrer torturas ou maus-tratos na Itália "é de rir" e constitui uma ofensa.
A Itália havia pedido a extradição de Battisti, condenado à prisão perpétua por quatro assassinatos - A decisão de não conceder a extradição é um feito desconcertante, ofensivo e de extrema gravidade - disse o ministro da Defesa, Ignazio La Russa, acrescentando que se surpreende que um "terrorista e assassino" ganhe status de refugiado político.
Representantes de famílias de vítimas de terrorismo também protestaram. Em carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da Associação dos Parentes das Vítimas de Cesare Battisti, Adriano Sabbadin, filho do açougueiro Lino Sabbadin - que teria sido morto por Battisti -, disse ter ficado profundamente ferido pela decisão. "Não temos palavras para exprimir a raiva e a indignação por um fato que nos parece um deboche cruel". Battisti foi considerado culpado da morte de dois policiais, de um joalheiro e de Sabbadin. O ex-militante está preso na penitenciária da Papuda, no Distrito Federal, desde 2007 O prefeito de Roma, Gianni Alemanno, em carta, pediu que Lula reveja a decisão: "Confio em seu interesse para que esta pessoa seja rapidamente confiada à Justiça italiana".
As edições online dos jornais italianos destacaram a notícia e abriram espaço para comentários. Internautas pedem que, em protesto, a embaixada do Brasil seja inundada de e-mails. Ex-terrorista e escritor de sucesso Cesare Battisti, de 54 anos, militou no grupo de extrema-esquerda italiano Proletários Armados pelo Comunismo, que, nos anos 70, praticou as chamadas "expropriações proletárias", jargão político para assaltos que financiavam a organização. Em 1993, foi condenado à prisão perpétua na Itália por quatro assassinatos. Em dois, foi condenado como autor do homicídio.
Nos outros, como organizador. Battisti nega os crimes. Foi descrito na época como um assassino frio, capaz de matar com um tiro um comerciante ferido durante um dos assaltos. Nesse caso, porém, a Justiça lhe atribuiu a coautoria moral, já que ele não estava na cidade onde ocorreu o crime.
Quando foi condenado na Itália, Battisti já estava na França, onde viveu de 1990 a 2004. Durante muitos anos, esteve sob a proteção do presidente socialista François Mitterrand. Lá, tornou-se um escritor famoso e publicou romances nos quais analisava sua experiência na luta armada. Battisti fugiu da França em 2004, quando a maré política virou e a Justiça francesa pôs fim à jurisprudência que o protegia até então da extradição desejada pelo governo italiano. Intelectuais franceses se mobilizaram na época a favor de Battisti, o que gerou polêmica com colegas italianos, para quem o ex-ativista era um assassino. Battisti fugiu para o Brasil em 21 de agosto de 2004. Foi detido no Rio de Janeiro, com ajuda da polícia francesa, em 18 de março de 2007
O Globo 15/01/2009. Vera Gonçalves de Araújo
A decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, de conceder status de refugiado político ao italiano Cesare Battisti, ex-integrante de um grupo de esquerda e condenado por quatro homicídios ocorridos nos anos 70, provocou ontem uma crise entre Itália e Brasil. O Ministério do Exterior italiano convocou o embaixador brasileiro no país, Adhemar Gabriel Bahadian, para pedir formalmente explicações sobre o refúgio e expressar "sua contrariedade e surpresa" com a decisão.
Diversos integrantes do governo italiano reagiram com indignação. A subsecretária de Justiça, Elisabetta Alberti Casellati, disse à rádio estatal RAI que "a decisão do governo brasileiro é uma afronta à Itália":
- É uma falta de respeito com a nossa democracia, que foi acusada, acreditando-se na tese de perseguição política, de tirania. É um insulto ao nosso sistema de Justiça, deslegitimado pela autoridade brasileira, e é uma vergonha para as vítimas do terrorismo e seus familiares.
O Departamento de Exteriores do governo italiano informou que o secretário-geral do ministério, Giampiero Massolo, manifestou ao embaixador "a indignação de todas as forças políticas parlamentares, dos parentes das vítimas e de toda a opinião pública" pela decisão. O Ministério do Exterior protestou, em nota: "Expressamos grande surpresa e forte amargura pela decisão tomada pelo ministro da Justiça brasileiro que, contrariando o que foi indicado pelo Comitê Nacional para os Refugiados, acatou o recurso de Cesare Battisti, um terrorista responsável por gravíssimos crimes que nada têm a ver com o status de refugiado político". Massolo demonstrou sua "perplexidade" pelas explicações de Tarso Genro ao justificar a concessão do benefício. Ele pediu ao embaixador que reitere às autoridades brasileiras o "firme clamor" do governo italiano para que a decisão seja revista.
"É um erro que ofende os italianos" O ministro da Justiça, Angelino Alfana, disse que ligará nas próximas horas para o colega brasileiro. Mais categórico foi o ministro do Interior, Roberto Maroni: - É um erro muito grave do governo brasileiro, que ofende as vítimas do terrorismo, o sistema judiciário e o povo italiano - disse Maroni, destacando que a justificativa de que Battisti poderia sofrer torturas ou maus-tratos na Itália "é de rir" e constitui uma ofensa.
A Itália havia pedido a extradição de Battisti, condenado à prisão perpétua por quatro assassinatos - A decisão de não conceder a extradição é um feito desconcertante, ofensivo e de extrema gravidade - disse o ministro da Defesa, Ignazio La Russa, acrescentando que se surpreende que um "terrorista e assassino" ganhe status de refugiado político.
Representantes de famílias de vítimas de terrorismo também protestaram. Em carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da Associação dos Parentes das Vítimas de Cesare Battisti, Adriano Sabbadin, filho do açougueiro Lino Sabbadin - que teria sido morto por Battisti -, disse ter ficado profundamente ferido pela decisão. "Não temos palavras para exprimir a raiva e a indignação por um fato que nos parece um deboche cruel". Battisti foi considerado culpado da morte de dois policiais, de um joalheiro e de Sabbadin. O ex-militante está preso na penitenciária da Papuda, no Distrito Federal, desde 2007 O prefeito de Roma, Gianni Alemanno, em carta, pediu que Lula reveja a decisão: "Confio em seu interesse para que esta pessoa seja rapidamente confiada à Justiça italiana".
As edições online dos jornais italianos destacaram a notícia e abriram espaço para comentários. Internautas pedem que, em protesto, a embaixada do Brasil seja inundada de e-mails. Ex-terrorista e escritor de sucesso Cesare Battisti, de 54 anos, militou no grupo de extrema-esquerda italiano Proletários Armados pelo Comunismo, que, nos anos 70, praticou as chamadas "expropriações proletárias", jargão político para assaltos que financiavam a organização. Em 1993, foi condenado à prisão perpétua na Itália por quatro assassinatos. Em dois, foi condenado como autor do homicídio.
Nos outros, como organizador. Battisti nega os crimes. Foi descrito na época como um assassino frio, capaz de matar com um tiro um comerciante ferido durante um dos assaltos. Nesse caso, porém, a Justiça lhe atribuiu a coautoria moral, já que ele não estava na cidade onde ocorreu o crime.
Quando foi condenado na Itália, Battisti já estava na França, onde viveu de 1990 a 2004. Durante muitos anos, esteve sob a proteção do presidente socialista François Mitterrand. Lá, tornou-se um escritor famoso e publicou romances nos quais analisava sua experiência na luta armada. Battisti fugiu da França em 2004, quando a maré política virou e a Justiça francesa pôs fim à jurisprudência que o protegia até então da extradição desejada pelo governo italiano. Intelectuais franceses se mobilizaram na época a favor de Battisti, o que gerou polêmica com colegas italianos, para quem o ex-ativista era um assassino. Battisti fugiu para o Brasil em 21 de agosto de 2004. Foi detido no Rio de Janeiro, com ajuda da polícia francesa, em 18 de março de 2007
O Globo 15/01/2009. Vera Gonçalves de Araújo

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