Em
2014, com a Copa, o Brasil receberá milhares turistas. Na África do Sul,
contados um a um, foram 309.554, dos quais 32% eram africanos, 24% europeus e
13% americanos. Bem menos do que os 2 milhões de visitantes que foram assistir
os jogos na Alemanha: e um pouco menos do que os 400 mil que, em 1994, viajaram
para os Estados Unidos. Embora em proporções distantes daquelas em que se
alinham as euforias políticas, deve-se reconhecer que haverá, sim, expressivo
fluxo de turistas. Todos devem ser bem recebidos e levar daqui boa impressão.
Para eles e para isso vêm aí as tais obras, que são, de fato, o que mais nos
interessa.
Estamos
faceiros com elas e reconhecemos, quase unanimemente, ser indispensável atender
quaisquer exigências que a FIFA nos faça. Menos pela Copa, repito, e mais,
muito mais, pelas obras da Copa. Estamos votando, inclusive, uma lei federal
dizendo que durante o período dos jogos, certos preceitos da nossa legislação
terão vigência sustada para que prevaleça a soberania da FIFA. Tudo pelas
obras. Tenho bem presente o pânico que fazia fremir o Rio Grande toda vez que,
nos arremates para acertar a empreitada do estádio do Inter, a bola batia na
trave. Um gelo de fazer fumaça corria pela espinha dorsal das autoridades.
Aquele pé no traseiro sugerido por um desaforado francês da FIFA poderia chutar
para longe de nós os benditos empreendimentos. Enfim, desse risco parece que
nos livramos.
Contudo,
no catálogo das promessas, no instigante saco de Papai Noel da Copa, há um
detalhe que me incomoda como etiqueta áspera no cangote. Por que só agora
aparecem recursos para essas melhorias em nossa infraestrutura, muitas das
quais previstas e necessárias há longo tempo à mobilidade urbana de Porto
Alegre? Só por causa da FIFA e seus turistas? Como se entende isso? Afinal, não
há um dólar furado de origem externa a financiá-las. A FIFA só arrecada. Não
põe um pila no negócio. Todas as obras serão feitas com dinheiro nosso, verde-amarelo,
federal, do contribuinte brasileiro. Dinheiro que por algum motivo sinistro e
malevolente não sairia do Tesouro Nacional nem dos cofres do BNDES pelo bem de
Porto Alegre nem do Rio Grande do Sul. Dinheiro que não veria o pôr de sol do
Guaíba se fosse para atender o povo daqui. Dinheiro que só deu as caras por
causa dos turistas que aparecerão atraídos pelo evento. Estou apontando uma
evidência, tipo - "Olha aí, oh!". Aliás, ninguém se deu o trabalho de
disfarçar. Não são para nós. São para a Copa.
E então? Não é
um insulto? Graças à FIFA e aos visitantes estrangeiros conquistamos um pacote
de regalias que sem essa motivação não mereceríamos e não teríamos. É nisso que
dá havermos permitido que a centralização de tudo nas mãos União relegasse Estados
e municípios à situação atual. Não será preciso piorar muito para, nos
tornarmos meras colônias de uma metrópole localizada no Planalto Central. Estão
nessa situação praticamente todas as unidades federadas, com exceção das amigas
da corte. Não há separatismo nessa analogia que faço. Bem ao contrário, se
estou reclamando é exatamente porque muito antes de ser gaúcho sou brasileiro e
rejeito o que estão fazendo com a Federação sonhada por nossos ancestrais.
Obras "da Copa!". Me, poupem. Zero Hora, 08/04/2012. Autor: Percival
Puggina. Difusão Geraldo Porci de Araújo. 20/04/2012.
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