terça-feira, 23 de novembro de 2010

NASCE A ESPERANÇA EM BELÉM

“Aviso ao público que perdi minha jóia mais preciosa”. Assim começa o dramático apelo feito por José-Maria Gironella em “O assalto das trevas”, numa pungente convocação aos leitores para que o ajudem a encontrar a esperança extraviada. Gironella a descreve “intranqüila” e “volúvel” como o próprio coração, e transmite bem, a quem o lê, o enorme vazio produzido pela anunciada perda.
Quantos não repetiriam igual súplica se lhes fosse dado perceber, na angústia que os domina e na abdicação da alegria de viver, a lacuna da esperança! Ou se anda por ela ou se anda a esmo – deixando-se viver, que é (na expressão de Bernard Bro) a pior forma de morrer. Mas cuidado! – se não colocamos nossa esperança onde ninguém a traia ou subtraia, corremos o risco de vê-la transviada ou suprimida. E há apenas duas hipóteses: ou a esperança envolve a angústia ou a angústia envolve a esperança.
Diante dessa realidade, poucos personagens mitológicos têm a atualidade de Sísifo, rei de Corinto, condenado por Hermes ao incessante suplício de rolar uma pedra ate o cume de um monte, deixá-la despencar, e voltar a rolá-la, aclive acima. Será isso a vida, com suas rotinas e canseiras? Para Sísifo não há esperança. E para nós? Há algo que confira sentido e dignidade aos nossos labores, evitando que se tornem vãs as esperanças humanas a que estão ligados?
Penso que o Natal nos põe perante a pergunta e a resposta. Esta última se encontra na proclamação feita pelo anjo aos pastores na noite em que Maria deu à luz: “Não temais, pois vos anuncio uma grande alegria que é para todo o povo. Nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo Senhor, na cidade de Davi”.
Não estou dizendo que só devamos ter esperanças transcendentes e que tenhamos que nos recusar às “intranqüilas e volúveis” esperanças imanentes. Estas fazem parte do nosso cotidiano. Cedo ou tarde, porém, se convertem em pedras de Sísifo se não as colocamos numa esperança maior. Por isso, o Advento vai acendendo sobre o Natal uma série de luzes que iluminam o sentido do Presépio: cumprem-se as promessas do Antigo Testamento, chega a Plenitude dos Tempos, nasce o Redentor, começa a ser fundida a Nova Aliança, o povo se encontra com a razão da sua Esperança.
O Natal não nos deve distrair do fato de que o Jesus que nasce em Belém é o mesmo Cristo na cruz de Jerusalém. O Jesus que conhecemos com o escrutínio da história é o mesmo Cristo em que cremos com a força da fé. E não os podemos dissociar, nem simplificar qualquer de suas duas naturezas. Se ficarmos apenas com o Menino Jesus, perderemos de vista que aquela criança é a mesma pessoa que interroga os apóstolos sobre quem dizem os homens que ele é, iniciando um diálogo que se encerra com o elogio a Pedro por ter recebido do Pai a revelação da natureza do Cristo. Sejamos herdeiros dessa Revelação e dessa Esperança. Zero Hora, 24/12/2006. Autor: Percival Puggina. Difusão: Geraldo Porci de Araújo. 24/12/06.

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